A impressão que se tem quando se depara com considerações sobre a relação entre Ciência e Religião, cada vez mais, é a mesma impressão que se tem quando se depara com considerações sobre a relação entre a Religião “A” e a Religião “B”. Parece haver uma mesma fé profunda, não confessa do mesmo modo pelas partes, na posse de uma verdade absoluta e inquestionável. Tem-se ainda a impressão que o ser humano deve ser um grande banco de dados adornado por alguns apêndices sensórios, cujo conteúdo está rigorosamente catalogado e classificado em temas como, Razão, Fé, Crenças, Emoções, Sentimentos, Amor, Medo e Ódio, dentre outros. Estes temas poderiam ser acessados de modo, absolutamente independente e exclusivo, um de cada vez, por um processador absolutamente neutro e capaz de escolher o tema Razão, ou o tema Fé, ou, quem sabe, o tema Medo, em função de alguma programação preestabelecida.
É cansativo observar a ladainha dos preconceituosos de um lado reclamando dos preconceituosos do outro lado. É cansativo assistir a apologia da razão sendo feita com a mais estúpida e incoerente postura irracional, a saber, que é possível separar as várias dimensões da mente humana em caixinhas diferentes e selecionáveis, independentemente, segundo algum critério de sabedoria vindo não se sabe bem de onde.
É lamentável ver um homem de Ciência como Richard Dawkins, por exemplo, escritor talentoso, zoólogo especialista na teoria da evolução de Darwin e Wallace, que poderia de modo competente e isento promover a verdadeira Ciência, enveredar pelos caminhos do fundamentalismo ateu. Ser ateu é legítimo e digno como qualquer outra posição religiosa. Mas não se deve confundir ateísmo nem teísmo com Ciência.
Em seu último livro, “God Delusion” erroneamente traduzido para “Deus, um Delírio”, Dawkins se supera. Nunca vi tanta bobagem, radicalismo e preconceitos juntos num mesmo livro. Dawkins chega ao cúmulo de sugerir que agnósticos e ateus mais moderados e respeitadores de outras concepções são covardes sem personalidade. Pensando bem o título em português faz jus ao autor, trata-se realmente de um delírio dawkiniano. A única idéia interessante apresentada por Dawkins diz respeito ao mapa mundi. Dawkins acha que no hemisfério norte o mapa deveria vir desenhado com o pólo Sul do lado de cima, só para mostrar aos alunos que o Norte representa uma convenção e não uma hierarquia de posição. Acho que Dawkins deveria aproveitar a idéia e pendurar na parede de seu escritório um quadro com Darwin dizendo: “A diversidade, em todas as suas dimensões, é fruto da seleção natural. Não deve ser combatida, mas sim compreendida”.
Somos seres multidimensionais. Somos produtos de uma seleção natural que combinou ao longo dos milhões de anos um conjunto vasto e sutil de fatores interdependentes e inseparáveis. Cada ser humano tem como força motriz e sustentação psíquica uma intrincada e sutil mistura de Razão, Fé, Imaginação, Sentimentos e Emoções. Nenhum desses atributos deve ser desqualificado e menosprezado. É pura ingenuidade querer sufocar a Religiosidade do ser humano, adjetivando-a pejorativamente de obscurantista e irracional, em nome de uma pretensa racionalidade que nada mais é que uma forma de Fé numa coisa chamada Razão. É evidente que a Religião, falando em termos de um corpo Doutrinário Organizado com vistas a conduzir, ou seduzir uma coletividade tem muitos erros, com muita frequência, terríveis. Mas não se deve concluir daí que, a Religião, falando agora em termos de um sentimento pessoal natural deva ser sufocada e combatida, indiscriminadamente, como se fosse tudo a mesma coisa. É este tipo de preconceito que está conduzindo o Mundo a uma intolerância Religiosa cada vez mais exacerbada.
Muito embora a intersecção entre Ciência e Religião não seja possível, ou, quem sabe, possamos até mesmo dizer, não seja desejável, a complementaridade entre essas duas esferas do espírito humano é uma consequência natural dos tijolos de que são feitos nossa mente. A religiosidade do ser humano faz parte da natureza, é também uma forma de esperança e busca de sentido para milhões e milhões de indivíduos. É absolutamente irracional, em nome da Ciência, querer tirar isso das pessoas, principalmente, porque a Ciência não tem o que por no lugar. É justamente aqui que entra a complementaridade. Ciência e Religião são dois modos distintos e complementares de busca e inserção do indivíduo na realidade da vida e construção do futuro. Basta que haja humildade filosófica e respeito pela diversidade natural.
Sei que essa humildade filosófica e respeito pela diversidade carrega um certo romantismo de minha parte, mas a gênese do conflito entre Religiões ou entre Religião e Ciência não está na Crença ou Fé propriamente dita, mas sim na ambição, no egoísmo e nos preconceitos atávicos do ser humano. Esses sentimentos, quando exacerbados, infelizmente, encontram na Religião um canal poderoso de expressão. Mas esse canal também ocorre com as torcidas organizadas, com a política partidária, com os sistemas operacionais de computador, com as diferenças étnicas, com a ecologia, com as mudanças climáticas e com a política de publicações científicas e distribuição de verbas para pesquisa, dentre vários outros que não me lembro agora. Se não houvesse Religião, o que é a mesma coisa que haver apenas uma Religião, o homem encontraria outros meios de dar vazão ao seu egoísmo e ambição. A Religião é apenas um canal, dentre muitos outros, que podem dar vazão ao fanatismo, este sim, a raiz do problema. Quem foi que disse que o fundamentalismo precisa de Deus? Será que foi Deus?
Tentar limitar o homem apenas à sua dimensão Racional isolada, supondo-se que isso fosse possível e, felizmente, tudo indica que não, privar-nos-ia de nossa capacidade de sonhar. Acho que não seria um bom caminho para o futuro. Privar-nos-ia de sonhar com esse futuro. Levar-nos-ia ao imobilismo, já que a ousadia me parece muito mais um atributo da fé que da razão. Acho que era isto que Einstein queria dizer com sua reflexão – “A Religião sem a Ciência é cega e a Ciência sem a Religião é aleijada”.
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