Reza um dogma muito popular nos dias de hoje que o conhecimento é libertador. Não é possível aceitar plenamente a teoria de Darwin e permanecer preso ao obscurantismo religioso, dizem os sábios de plantão.
A primeira parte, não sei por que, lembra muito os velhos chavões: “Somente Jesus Salva”; “A fé vos libertará”; “A Igreja é a salvação”, dentre outros assemelhados. A segunda parte é um pouco mais elaborada. Traz implícita de forma bem clara a seguinte proposta: “Ou você aceita a nova Fé ou está errado”. Não há terceira opção. Lembra bem a proposta da Igreja na época da inquisição: “Ou se está com a Igreja ou se está contra a Igreja”
A primeira vista, questionar o poder libertador do conhecimento parece estapafúrdio. Não há porque duvidar que o conhecimento ilumine os caminhos do homem. É ilógico pensar o contrário. Mas vamos por partes. Vamos reler o texto inicial novamente e tentar relacionar melhor as várias idéias ali colocadas. Lá não está escrito que o conhecimento - aliás, o que é conhecimento? – ilumina os caminhos do homem. Está escrito que o conhecimento é libertador. Mas liberta do que? Acho que é aqui que entra a segunda parte do texto. Fica claro que existe uma correlação entre Liberdade e Religião, isto é, fica claro que existe uma Fé pertencente a uma nova Religião Materialista ou, pretensamente, Racionalista, que prega que a Religião que não for materialista escraviza o homem. Não importa qual seja a Religião, não vale questionarmos o reducionismo, é um dogma da nova Fé.
É evidente que, de modo geral, as Religiões se apóiam em Dogmas e estes não devem ser discutidos sob pena de descaracterizarmos, completamente, a Religião resultante desses princípios dogmáticos. Mas note-se. Estamos falando das Religiões de modo geral e, mais ainda, estamos falando de um corpo Doutrinário organizado com vistas a estabelecer um conjunto de princípios que permitam uma coletividade seguir de forma mais ou menos disciplinada e coerente, os eventos e rituais dessa Doutrina. Mas, por definição, isto não faz da pessoa, escrava da Doutrina, principalmente no Brasil onde existe uma liberdade muito grande de Crenças e, além disto, um sincretismo religioso bastante disseminado. As pessoas são livres para escolherem seus caminhos e concepções de Mundo. Se as pessoas escolhem uma concepção espiritualista em lugar de uma concepção materialista, não significa que sejam intelectualmente escravas de alguma coisa, exceto se considerarmos também o materialismo como intelectualmente escravizante. A menos que o materialismo prove, cientificamente, que não existe nada além de matéria, tal qual a conhecemos, já que o espírito, para quem o concebe, é alguma coisa, temos que ampliar o conceito libertador do conhecimento e não restringi-lo como querem os materialistas.
Claro que é compreensível e até mesmo necessário a crítica aos excessos de uma determinada concepção ou confissão Religiosa. Claro que não se deve confundir liberdade de Crença com intervenção Religiosa nos assuntos de Estado, até porque, liberdade de Crença só pode existir em um Estado genuinamente Democrático e Laico. E, sendo assim, não há porque temer a Religião e, preconceituosamente, estigmatizar seus seguidores com a pecha de místicos ignorantes.
De outro lado temos o erro grosseiro ou, quem sabe, mera artimanha tendenciosa, de querer jogar Ciência contra Religião e vice-versa. Algum sábio de alguma civilização extraterrena mais adiantada deve ter dito a alguns terrestres iluminados que a teoria da evolução de Darwin e a concepção espiritualista do Universo são auto-excludentes. Meu Deus do céu! Que tipo de raciocínio esdrúxulo é este? Quem foi que disse que um espiritualista não pode entender e apreciar a beleza da teoria da evolução? Ao contrário, quem parece não entender muito bem essa teoria são os materialistas. Não conseguem entender que a diversidade Religiosa e de Concepções Filosóficas sobre o Mundo são fruto da seleção natural. Não deveriam combater essa diversidade, mas sim buscar compreendê-la. Ou será que a seleção natural originou apenas o materialismo e algum deus malvado, escravagista e inimigo dos materialistas fez o resto?
Em lugar de combater, indiscriminadamente, as Religiões com referências pejorativas, deve se combater o Radicalismo, inclusive o Radicalismo Materialista. Em lugar de discursos falaciosos, hipócritas e pretensamente racionalistas, vamos olhar a violência Urbana, o Crime Organizado e o Narcotráfico que, por baixo, responde por cerca de 2% do PIB Mundial. Segundo dados recentes (http://www.ansef.org.br/verNoticia.php?cod=1755) são 23 máfias espalhadas pelo Mundo, máfias que têm muito mais a ver com uma visão materialista exacerbada do mundo do que com Religião. Em lugar de uma falsa defesa da ciência contra o mito do obscurantismo religioso, vamos olhar também para o obscurantismo materialista que só tem feito ampliar cada vez mais a base da vergonhosa pirâmide social Mundial.
Com toda certeza vamos precisar muito de Ciência e Tecnologia para superar os graves problemas que assolam a humanidade. Mas se não houver antes, um olhar honesto e isento sobre os valores que realmente contam para o futuro do ser humano no planeta Terra, a Ciência e a Tecnologia não passarão de conhecimento inútil.
domingo, 20 de abril de 2008
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