segunda-feira, 24 de março de 2008

“Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Com essas palavras, Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.), considerado o pai da Filosofia, exprimia sua convicção de que a vida precisa de um sentido para valer a pena ser vivida. Esse sentido deve ser buscado por cada um de nós através do constante exame das relações entre mundo exterior e o nosso próprio mundo interior. Isso significa ainda enfrentarmos os desafios, as dúvidas e as angústias que se manifestam nas mentes inquietas e ousadas, mas também sonhadoras e sensíveis.

E o que é um Sonho?
O que é a Realidade?
Quem somos nós?
O que é Deus?
Qual a importância ou sentido de tudo isso?

Não!
Não espere encontrar aqui respostas diretas a essas perguntas. Este não é um livro de perguntas e respostas, ao contrário, existe aqui muito mais perguntas que respostas. Também não espere encontrar aqui perguntas novas. As velhas já bastam. Continuam por aí, bem vivas, enigmáticas, terrivelmente impenetráveis, desafiando nossa inteligência, nossa imaginação e nossa criatividade. Mas, por outro lado, sempre podemos lançar um novo olhar sobre os velhos dilemas. Sempre podemos buscar uma nova perspectiva para a mesma questão. Sempre podemos experimentar ver as coisas sob outro ângulo e, principalmente, podemos rever as velhas “respostas”, pondo de lado aquelas que já se acham corroídas pelo tempo e pelos preconceitos. À medida que vamos evoluindo, ampliando nossos horizontes, conhecendo melhor nossa condição humana, nossas limitações e nossas possibilidades, vamos também construindo uma visão diferente do Mundo a nossa volta. As velhas e eternas inquietações do espírito humano continuam sem uma resposta universal, capaz de estabelecer uma mudança de paradigma no caminhar da humanidade, mas a dimensão, a beleza e a importância dessas indagações vão se transformando com o tempo. Talvez isso seja até mais importante que as repostas.

As inquietações do espírito são como alavancas evolutivas. Ora se apresentam na forma de uma angústia frustrante, ora se apresentam na forma de um sonho motivador. E os sonhos não se acabam nunca. Eles evoluem com o homem. Mudam sua forma externa, ganham novos matizes, novos cenários e novas razões para continuarem existindo. Somos movidos por nossos sonhos. Somos possuídos por nossos sonhos. Amor e ódio, vida e morte, paz e guerra, criação e destruição são meras transformações. A vida humana é apenas um pequeno fragmento dentro dessa eterna dinâmica transformadora.

A fronteira nebulosa que separa a Ciência e a Religião, cheia de armadilhas e tabus, está hoje um pouco mais próxima de uma abordagem conciliatória. A maior barreira continua sendo o preconceito. Superar preconceitos é o maior desafio do homem. O preconceito cega o intelecto e endurece o coração, alimentando o egoísmo e a intolerância. São com esses dilemas que estaremos evolvidos neste livro. Para podermos olhar as coisas de forma diferente, logo de início precisamos lutar contra nossos preconceitos. Precisamos arejar as velhas idéias, buscar na origem a essência pura dos sentimentos e anseios do ser humano, despir os conceitos de acessórios preconceituosos e tendenciosos. Isto acrescenta um outro desafio aos nossos propósitos, o desafio da linguagem. Nossa linguagem, isto é, a forma como traduzimos idéias e sentimentos por meio de palavras, é bastante limitada. Conceitos como água e fogo, por exemplo, referem-se a coisas que podem ser apreendidas pelos nossos sentidos e raramente dão margem a ambigüidade. Por outro lado, conceitos abstratos como Religião e Crença, por exemplo, são melhor captados pelos nossos sentimentos e podem ser apreendidos de modo muito diferente por indivíduos diferentes ou até mesmo pelo mesmo indivíduo em circunstâncias ou momentos diferentes da vida.

A Ciência tem como principal linguagem a matemática. Sempre que dissermos que: se x + x = 4, então x = 2, qualquer pessoa em qualquer lugar do Mundo, independente de sua formação Religiosa ou Cultural, saberá exatamente o que estamos querendo dizer. Mais ainda, ninguém, em lugar algum irá questionar essa afirmação. A Religião, por outro lado, possui inúmeras linguagens diferentes e subjetivas. O próprio termo Religião, admite uma variedade muito grande de interpretações, ensejando uma ampla gama de posições e preconceitos diferentes. Entretanto, apesar disto, quando se busca uma imersão mais profunda na essência das coisas, é possível notar que as diferenças, em grande parte, são superficiais e fortemente atreladas aos preconceitos. Em sua essência mais pura, Ciência e Religião se complementam. Nem a Ciência nem a Religião, isoladas, conseguem oferecer ao indivíduo uma compreensão satisfatória da realidade humana.

Sempre que se fala em Religião, a divergência é a regra e, de modo geral, as pessoas vão logo pensando em alguma Doutrina tradicional e bem estruturada como o Catolicismo ou Islamismo, ou ainda numa das várias correntes Protestantes, por exemplo. E assim, imediatamente, se desencadeia na cabeça das pessoas todo um processo de pré-aceitação ou pré-rejeição, de acordo com as idéias preconcebidas que essas pessoas tenham arquivado em suas mentes ao longo de suas vidas. Por isto procuraremos nos afastar dessa conceituação de âmbito doutrinário. Neste livro queremos associar o termo Religião ao indivíduo. Queremos resgatar a religiosidade natural e individual do ser humano. Veremos que existe uma enorme diferença entre Religião na forma de um Corpo Doutrinário estruturado, e Religião na forma de um sentimento, pensamento ou convicção individual. Além do mais, acreditamos no ecumenismo e por isto não pretendemos abordar aqui nenhuma Doutrina em particular. Toda Doutrina abriga indivíduos com tendências boas e más, moderadas e radicais. A filiação a qualquer Doutrina não garante a virtude de ninguém e, assim sendo, não é razoável vincular as virtudes ou defeitos dos indivíduos, diretamente à Doutrina a qual pertencem. Isto seria uma atitude leviana e preconceituosa.

Finalmente, a opção pelo sentimento religioso individual, permite-nos considerar também o crescente número de pessoas que, por motivos vários, não seguem nenhuma Doutrina em particular, mas guardam dentro de si alguma forma de religiosidade. É a essência deste sentimento religioso individual, que pode ou não estar identificado com alguma Doutrina em particular, que nos interessa examinar. Este é o ponto fundamental de todo este livro. O leitor deve ter sempre em mente este ponto e, sempre que houver falta de clareza acidental e involuntária, lembrar-se que nosso foco é a Religião como um sentimento ou pensamento individual e não como um corpo doutrinário. Em nenhum momento pretendemos abordar a Religião A, B ou C. Queremos falar apenas e tão somente da religiosidade individual cuja gênese antecede aquela das Doutrinas A, B ou C, muito embora possa confundir-se com estas últimas.

Claro que alguém pode questionar e entender que não existe essa história de sentimento religioso individual. Isso é balela - costuma se dizer. É freqüente encontrarmos afirmações do tipo - “O indivíduo ou é Católico, ou é Budista ou é Evangélico ou qualquer outra coisa, ou então não é nada disso” - Onde este nada disso, provavelmente, queira significar ser Ateu ou ser Agnóstico ou então não ser nada disso também. Isso mostra bem a grande confusão de idéias preconcebidas.

Bem, de certo modo, isto também representa uma posição religiosa individual. Entretanto, gostaríamos de tratar todo o leque de possíveis convicções religiosas individuais com isenção de ânimos, sem pretender eleger um determinado perfil como sendo melhor ou pior que os demais. E, sendo assim, estaremos sempre a favor da aceitação respeitosa das diferenças e sempre contra qualquer manifestação tendenciosa e discriminatória. É preciso entendermos - e acho que Sócrates também pensava assim – que a busca pelo sentido da vida só tem sentido sob o princípio da tolerância e respeito fraterno. E para quem creia que não há sentido a ser buscado, tudo bem, isto também é uma crença individual válida.

Não queremos confrontar crenças. As crenças, que também podem se apresentar como descrenças, não são racionalizáveis. Não precisam ser justificadas. São sentimentos a serem examinados segundo a consciência de cada um. O que nos interessa aqui é prospectar caminhos que conduzam à complementaridade em lugar do antagonismo.

A manifestação religiosa como instrumento de acesso ao poder, social ou político, ou ainda como instrumento de disputa ideológica, definitivamente, está fora de nossos propósitos. Mais que isto, este tipo de proposta, que pode se manifestar tanto ao nível do indivíduo como ao nível de um corpo doutrinário, deve ser repudiado com bastante vigor.

É neste imenso oceano de idéias, definições, conceitos e preconceitos que iremos navegar. Trata-se de uma formidável e inigualável aventura, repleta de surpresas e armadilhas. Um mergulho nos meandros desordenados do pensamento humano. Uma aventura limitada apenas pelos humildes recursos deste pretenso colecionador de sonhos e a imaginação de cada um.

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