segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ano Novo Ano Velho

Ano Novo! O primeiro ano do fim de nossas vidas. Soa fúnebre, não é mesmo? Me perdoem, mas era assim que um conhecido meu ironizava as comemorações de fim de ano. Ironicamente, ele não verá o raiar do Ano Novo. O Natal passado foi o último de sua vida.

Infelizmente, para um crescente número de pessoas, as festas de fim de ano não passam de uma convenção comercial onde a ordem é celebrar o consumo, a vaidade e os prazeres do álcool e das drogas. Uma espécie de reação inconsciente à falsidade e hipocrisia cada vez maior do Mundo. Um Mundo mercantilizado em todos os setores, incluindo a vida e a amizade. As referências de fundo religioso ou humanitário há muito deixaram de ter significado para uma crescente maioria. Não tanto pelas incertezas históricas quanto ao nascimento de Jesus, mas, principalmente, pela falta de referências quanto ao real valor da vida, da amizade e do amor.

O mercantilismo transformou tudo em um jogo de interesses. Tudo passou a ser expresso em índices monetários. A vida deve ser consumida em prazeres e muita adrenalina, comprando ilusões e fantasias de todos os tipos. Foi com essa filosofia que meu conhecido embalou seu último Natal. A criança inocente que um dia sonhou feliz com Papai Noel “cresceu”. Cresceu e trocou o sonho-esperança pela ilusão mortal de uma noite de delírios.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Um pobre País rico

Sexta-feira 26/09/2008, a caminho do INPE através da via Dutra, deparei-me com gigantesco congestionamento. Enquanto isto, o rádio do carro castigava meus ouvidos com a famigerada propaganda eleitoral gratuita. Os candidatos iam e vinham fazendo sempre as mesmas promessas furadas e por isso nunca presto atenção. O rádio ligado é um hábito. Mas, devido ao congestionamento, não pude deixar de observar algumas promessas referentes aos problemas de trânsito de São José dos Campos. Não prestei atenção no candidato nem no partido, apenas atentei ao fato de que falava sobre os problemas de trânsito que, como sabemos é regra em toda grande cidade brasileira.

A propaganda falava em construção de novas avenidas e ruas para desafogar o trânsito. Tudo muito bonito, mas pouco prático e desprovido de inteligência ou de real interesse pelo município e seus munícipes. Não vou dizer que não haja necessidade de novos canais de escoamento de trânsito, mas o problema maior está na precariedade do transporte coletivo urbano e do escoamento de cargas interurbanas e interestaduais. Esse é o real problema do Brasil.

Além disto, São José dos Campos vem permitindo o adensamento demográfico de uma forma absurda. Prédios e mais prédios colados uns aos outros. São centenas e centenas de carros concentrados em muito pouco espaço. E a consequência não fica apenas no trânsito. Temos também uma sobrecarga da infra-estrutura de águas, esgotos, rede elétrica, rede de águas pluviais, isto para não falarmos na poluição e na violência urbana.
Ferrovias? Para que ferrovias? Somos um País Rico! Um pobre País rico!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

domingo, 20 de abril de 2008

Dogmas dos novos tempos

Reza um dogma muito popular nos dias de hoje que o conhecimento é libertador. Não é possível aceitar plenamente a teoria de Darwin e permanecer preso ao obscurantismo religioso, dizem os sábios de plantão.

A primeira parte, não sei por que, lembra muito os velhos chavões: “Somente Jesus Salva”; “A fé vos libertará”; “A Igreja é a salvação”, dentre outros assemelhados. A segunda parte é um pouco mais elaborada. Traz implícita de forma bem clara a seguinte proposta: “Ou você aceita a nova Fé ou está errado”. Não há terceira opção. Lembra bem a proposta da Igreja na época da inquisição: “Ou se está com a Igreja ou se está contra a Igreja”

A primeira vista, questionar o poder libertador do conhecimento parece estapafúrdio. Não há porque duvidar que o conhecimento ilumine os caminhos do homem. É ilógico pensar o contrário. Mas vamos por partes. Vamos reler o texto inicial novamente e tentar relacionar melhor as várias idéias ali colocadas. Lá não está escrito que o conhecimento - aliás, o que é conhecimento? – ilumina os caminhos do homem. Está escrito que o conhecimento é libertador. Mas liberta do que? Acho que é aqui que entra a segunda parte do texto. Fica claro que existe uma correlação entre Liberdade e Religião, isto é, fica claro que existe uma Fé pertencente a uma nova Religião Materialista ou, pretensamente, Racionalista, que prega que a Religião que não for materialista escraviza o homem. Não importa qual seja a Religião, não vale questionarmos o reducionismo, é um dogma da nova Fé.

É evidente que, de modo geral, as Religiões se apóiam em Dogmas e estes não devem ser discutidos sob pena de descaracterizarmos, completamente, a Religião resultante desses princípios dogmáticos. Mas note-se. Estamos falando das Religiões de modo geral e, mais ainda, estamos falando de um corpo Doutrinário organizado com vistas a estabelecer um conjunto de princípios que permitam uma coletividade seguir de forma mais ou menos disciplinada e coerente, os eventos e rituais dessa Doutrina. Mas, por definição, isto não faz da pessoa, escrava da Doutrina, principalmente no Brasil onde existe uma liberdade muito grande de Crenças e, além disto, um sincretismo religioso bastante disseminado. As pessoas são livres para escolherem seus caminhos e concepções de Mundo. Se as pessoas escolhem uma concepção espiritualista em lugar de uma concepção materialista, não significa que sejam intelectualmente escravas de alguma coisa, exceto se considerarmos também o materialismo como intelectualmente escravizante. A menos que o materialismo prove, cientificamente, que não existe nada além de matéria, tal qual a conhecemos, já que o espírito, para quem o concebe, é alguma coisa, temos que ampliar o conceito libertador do conhecimento e não restringi-lo como querem os materialistas.

Claro que é compreensível e até mesmo necessário a crítica aos excessos de uma determinada concepção ou confissão Religiosa. Claro que não se deve confundir liberdade de Crença com intervenção Religiosa nos assuntos de Estado, até porque, liberdade de Crença só pode existir em um Estado genuinamente Democrático e Laico. E, sendo assim, não há porque temer a Religião e, preconceituosamente, estigmatizar seus seguidores com a pecha de místicos ignorantes.

De outro lado temos o erro grosseiro ou, quem sabe, mera artimanha tendenciosa, de querer jogar Ciência contra Religião e vice-versa. Algum sábio de alguma civilização extraterrena mais adiantada deve ter dito a alguns terrestres iluminados que a teoria da evolução de Darwin e a concepção espiritualista do Universo são auto-excludentes. Meu Deus do céu! Que tipo de raciocínio esdrúxulo é este? Quem foi que disse que um espiritualista não pode entender e apreciar a beleza da teoria da evolução? Ao contrário, quem parece não entender muito bem essa teoria são os materialistas. Não conseguem entender que a diversidade Religiosa e de Concepções Filosóficas sobre o Mundo são fruto da seleção natural. Não deveriam combater essa diversidade, mas sim buscar compreendê-la. Ou será que a seleção natural originou apenas o materialismo e algum deus malvado, escravagista e inimigo dos materialistas fez o resto?

Em lugar de combater, indiscriminadamente, as Religiões com referências pejorativas, deve se combater o Radicalismo, inclusive o Radicalismo Materialista. Em lugar de discursos falaciosos, hipócritas e pretensamente racionalistas, vamos olhar a violência Urbana, o Crime Organizado e o Narcotráfico que, por baixo, responde por cerca de 2% do PIB Mundial. Segundo dados recentes (http://www.ansef.org.br/verNoticia.php?cod=1755) são 23 máfias espalhadas pelo Mundo, máfias que têm muito mais a ver com uma visão materialista exacerbada do mundo do que com Religião. Em lugar de uma falsa defesa da ciência contra o mito do obscurantismo religioso, vamos olhar também para o obscurantismo materialista que só tem feito ampliar cada vez mais a base da vergonhosa pirâmide social Mundial.

Com toda certeza vamos precisar muito de Ciência e Tecnologia para superar os graves problemas que assolam a humanidade. Mas se não houver antes, um olhar honesto e isento sobre os valores que realmente contam para o futuro do ser humano no planeta Terra, a Ciência e a Tecnologia não passarão de conhecimento inútil.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Quem foi que disse que o fundamentalismo precisa de Deus? Será que foi Deus?

A impressão que se tem quando se depara com considerações sobre a relação entre Ciência e Religião, cada vez mais, é a mesma impressão que se tem quando se depara com considerações sobre a relação entre a Religião “A” e a Religião “B”. Parece haver uma mesma fé profunda, não confessa do mesmo modo pelas partes, na posse de uma verdade absoluta e inquestionável. Tem-se ainda a impressão que o ser humano deve ser um grande banco de dados adornado por alguns apêndices sensórios, cujo conteúdo está rigorosamente catalogado e classificado em temas como, Razão, Fé, Crenças, Emoções, Sentimentos, Amor, Medo e Ódio, dentre outros. Estes temas poderiam ser acessados de modo, absolutamente independente e exclusivo, um de cada vez, por um processador absolutamente neutro e capaz de escolher o tema Razão, ou o tema Fé, ou, quem sabe, o tema Medo, em função de alguma programação preestabelecida.

É cansativo observar a ladainha dos preconceituosos de um lado reclamando dos preconceituosos do outro lado. É cansativo assistir a apologia da razão sendo feita com a mais estúpida e incoerente postura irracional, a saber, que é possível separar as várias dimensões da mente humana em caixinhas diferentes e selecionáveis, independentemente, segundo algum critério de sabedoria vindo não se sabe bem de onde.

É lamentável ver um homem de Ciência como Richard Dawkins, por exemplo, escritor talentoso, zoólogo especialista na teoria da evolução de Darwin e Wallace, que poderia de modo competente e isento promover a verdadeira Ciência, enveredar pelos caminhos do fundamentalismo ateu. Ser ateu é legítimo e digno como qualquer outra posição religiosa. Mas não se deve confundir ateísmo nem teísmo com Ciência.

Em seu último livro, “God Delusion” erroneamente traduzido para “Deus, um Delírio”, Dawkins se supera. Nunca vi tanta bobagem, radicalismo e preconceitos juntos num mesmo livro. Dawkins chega ao cúmulo de sugerir que agnósticos e ateus mais moderados e respeitadores de outras concepções são covardes sem personalidade. Pensando bem o título em português faz jus ao autor, trata-se realmente de um delírio dawkiniano. A única idéia interessante apresentada por Dawkins diz respeito ao mapa mundi. Dawkins acha que no hemisfério norte o mapa deveria vir desenhado com o pólo Sul do lado de cima, só para mostrar aos alunos que o Norte representa uma convenção e não uma hierarquia de posição. Acho que Dawkins deveria aproveitar a idéia e pendurar na parede de seu escritório um quadro com Darwin dizendo: “A diversidade, em todas as suas dimensões, é fruto da seleção natural. Não deve ser combatida, mas sim compreendida”.

Somos seres multidimensionais. Somos produtos de uma seleção natural que combinou ao longo dos milhões de anos um conjunto vasto e sutil de fatores interdependentes e inseparáveis. Cada ser humano tem como força motriz e sustentação psíquica uma intrincada e sutil mistura de Razão, Fé, Imaginação, Sentimentos e Emoções. Nenhum desses atributos deve ser desqualificado e menosprezado. É pura ingenuidade querer sufocar a Religiosidade do ser humano, adjetivando-a pejorativamente de obscurantista e irracional, em nome de uma pretensa racionalidade que nada mais é que uma forma de Fé numa coisa chamada Razão. É evidente que a Religião, falando em termos de um corpo Doutrinário Organizado com vistas a conduzir, ou seduzir uma coletividade tem muitos erros, com muita frequência, terríveis. Mas não se deve concluir daí que, a Religião, falando agora em termos de um sentimento pessoal natural deva ser sufocada e combatida, indiscriminadamente, como se fosse tudo a mesma coisa. É este tipo de preconceito que está conduzindo o Mundo a uma intolerância Religiosa cada vez mais exacerbada.

Muito embora a intersecção entre Ciência e Religião não seja possível, ou, quem sabe, possamos até mesmo dizer, não seja desejável, a complementaridade entre essas duas esferas do espírito humano é uma consequência natural dos tijolos de que são feitos nossa mente. A religiosidade do ser humano faz parte da natureza, é também uma forma de esperança e busca de sentido para milhões e milhões de indivíduos. É absolutamente irracional, em nome da Ciência, querer tirar isso das pessoas, principalmente, porque a Ciência não tem o que por no lugar. É justamente aqui que entra a complementaridade. Ciência e Religião são dois modos distintos e complementares de busca e inserção do indivíduo na realidade da vida e construção do futuro. Basta que haja humildade filosófica e respeito pela diversidade natural.

Sei que essa humildade filosófica e respeito pela diversidade carrega um certo romantismo de minha parte, mas a gênese do conflito entre Religiões ou entre Religião e Ciência não está na Crença ou Fé propriamente dita, mas sim na ambição, no egoísmo e nos preconceitos atávicos do ser humano. Esses sentimentos, quando exacerbados, infelizmente, encontram na Religião um canal poderoso de expressão. Mas esse canal também ocorre com as torcidas organizadas, com a política partidária, com os sistemas operacionais de computador, com as diferenças étnicas, com a ecologia, com as mudanças climáticas e com a política de publicações científicas e distribuição de verbas para pesquisa, dentre vários outros que não me lembro agora. Se não houvesse Religião, o que é a mesma coisa que haver apenas uma Religião, o homem encontraria outros meios de dar vazão ao seu egoísmo e ambição. A Religião é apenas um canal, dentre muitos outros, que podem dar vazão ao fanatismo, este sim, a raiz do problema. Quem foi que disse que o fundamentalismo precisa de Deus? Será que foi Deus?

Tentar limitar o homem apenas à sua dimensão Racional isolada, supondo-se que isso fosse possível e, felizmente, tudo indica que não, privar-nos-ia de nossa capacidade de sonhar. Acho que não seria um bom caminho para o futuro. Privar-nos-ia de sonhar com esse futuro. Levar-nos-ia ao imobilismo, já que a ousadia me parece muito mais um atributo da fé que da razão. Acho que era isto que Einstein queria dizer com sua reflexão – “A Religião sem a Ciência é cega e a Ciência sem a Religião é aleijada”.

segunda-feira, 24 de março de 2008

“Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Com essas palavras, Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.), considerado o pai da Filosofia, exprimia sua convicção de que a vida precisa de um sentido para valer a pena ser vivida. Esse sentido deve ser buscado por cada um de nós através do constante exame das relações entre mundo exterior e o nosso próprio mundo interior. Isso significa ainda enfrentarmos os desafios, as dúvidas e as angústias que se manifestam nas mentes inquietas e ousadas, mas também sonhadoras e sensíveis.

E o que é um Sonho?
O que é a Realidade?
Quem somos nós?
O que é Deus?
Qual a importância ou sentido de tudo isso?

Não!
Não espere encontrar aqui respostas diretas a essas perguntas. Este não é um livro de perguntas e respostas, ao contrário, existe aqui muito mais perguntas que respostas. Também não espere encontrar aqui perguntas novas. As velhas já bastam. Continuam por aí, bem vivas, enigmáticas, terrivelmente impenetráveis, desafiando nossa inteligência, nossa imaginação e nossa criatividade. Mas, por outro lado, sempre podemos lançar um novo olhar sobre os velhos dilemas. Sempre podemos buscar uma nova perspectiva para a mesma questão. Sempre podemos experimentar ver as coisas sob outro ângulo e, principalmente, podemos rever as velhas “respostas”, pondo de lado aquelas que já se acham corroídas pelo tempo e pelos preconceitos. À medida que vamos evoluindo, ampliando nossos horizontes, conhecendo melhor nossa condição humana, nossas limitações e nossas possibilidades, vamos também construindo uma visão diferente do Mundo a nossa volta. As velhas e eternas inquietações do espírito humano continuam sem uma resposta universal, capaz de estabelecer uma mudança de paradigma no caminhar da humanidade, mas a dimensão, a beleza e a importância dessas indagações vão se transformando com o tempo. Talvez isso seja até mais importante que as repostas.

As inquietações do espírito são como alavancas evolutivas. Ora se apresentam na forma de uma angústia frustrante, ora se apresentam na forma de um sonho motivador. E os sonhos não se acabam nunca. Eles evoluem com o homem. Mudam sua forma externa, ganham novos matizes, novos cenários e novas razões para continuarem existindo. Somos movidos por nossos sonhos. Somos possuídos por nossos sonhos. Amor e ódio, vida e morte, paz e guerra, criação e destruição são meras transformações. A vida humana é apenas um pequeno fragmento dentro dessa eterna dinâmica transformadora.

A fronteira nebulosa que separa a Ciência e a Religião, cheia de armadilhas e tabus, está hoje um pouco mais próxima de uma abordagem conciliatória. A maior barreira continua sendo o preconceito. Superar preconceitos é o maior desafio do homem. O preconceito cega o intelecto e endurece o coração, alimentando o egoísmo e a intolerância. São com esses dilemas que estaremos evolvidos neste livro. Para podermos olhar as coisas de forma diferente, logo de início precisamos lutar contra nossos preconceitos. Precisamos arejar as velhas idéias, buscar na origem a essência pura dos sentimentos e anseios do ser humano, despir os conceitos de acessórios preconceituosos e tendenciosos. Isto acrescenta um outro desafio aos nossos propósitos, o desafio da linguagem. Nossa linguagem, isto é, a forma como traduzimos idéias e sentimentos por meio de palavras, é bastante limitada. Conceitos como água e fogo, por exemplo, referem-se a coisas que podem ser apreendidas pelos nossos sentidos e raramente dão margem a ambigüidade. Por outro lado, conceitos abstratos como Religião e Crença, por exemplo, são melhor captados pelos nossos sentimentos e podem ser apreendidos de modo muito diferente por indivíduos diferentes ou até mesmo pelo mesmo indivíduo em circunstâncias ou momentos diferentes da vida.

A Ciência tem como principal linguagem a matemática. Sempre que dissermos que: se x + x = 4, então x = 2, qualquer pessoa em qualquer lugar do Mundo, independente de sua formação Religiosa ou Cultural, saberá exatamente o que estamos querendo dizer. Mais ainda, ninguém, em lugar algum irá questionar essa afirmação. A Religião, por outro lado, possui inúmeras linguagens diferentes e subjetivas. O próprio termo Religião, admite uma variedade muito grande de interpretações, ensejando uma ampla gama de posições e preconceitos diferentes. Entretanto, apesar disto, quando se busca uma imersão mais profunda na essência das coisas, é possível notar que as diferenças, em grande parte, são superficiais e fortemente atreladas aos preconceitos. Em sua essência mais pura, Ciência e Religião se complementam. Nem a Ciência nem a Religião, isoladas, conseguem oferecer ao indivíduo uma compreensão satisfatória da realidade humana.

Sempre que se fala em Religião, a divergência é a regra e, de modo geral, as pessoas vão logo pensando em alguma Doutrina tradicional e bem estruturada como o Catolicismo ou Islamismo, ou ainda numa das várias correntes Protestantes, por exemplo. E assim, imediatamente, se desencadeia na cabeça das pessoas todo um processo de pré-aceitação ou pré-rejeição, de acordo com as idéias preconcebidas que essas pessoas tenham arquivado em suas mentes ao longo de suas vidas. Por isto procuraremos nos afastar dessa conceituação de âmbito doutrinário. Neste livro queremos associar o termo Religião ao indivíduo. Queremos resgatar a religiosidade natural e individual do ser humano. Veremos que existe uma enorme diferença entre Religião na forma de um Corpo Doutrinário estruturado, e Religião na forma de um sentimento, pensamento ou convicção individual. Além do mais, acreditamos no ecumenismo e por isto não pretendemos abordar aqui nenhuma Doutrina em particular. Toda Doutrina abriga indivíduos com tendências boas e más, moderadas e radicais. A filiação a qualquer Doutrina não garante a virtude de ninguém e, assim sendo, não é razoável vincular as virtudes ou defeitos dos indivíduos, diretamente à Doutrina a qual pertencem. Isto seria uma atitude leviana e preconceituosa.

Finalmente, a opção pelo sentimento religioso individual, permite-nos considerar também o crescente número de pessoas que, por motivos vários, não seguem nenhuma Doutrina em particular, mas guardam dentro de si alguma forma de religiosidade. É a essência deste sentimento religioso individual, que pode ou não estar identificado com alguma Doutrina em particular, que nos interessa examinar. Este é o ponto fundamental de todo este livro. O leitor deve ter sempre em mente este ponto e, sempre que houver falta de clareza acidental e involuntária, lembrar-se que nosso foco é a Religião como um sentimento ou pensamento individual e não como um corpo doutrinário. Em nenhum momento pretendemos abordar a Religião A, B ou C. Queremos falar apenas e tão somente da religiosidade individual cuja gênese antecede aquela das Doutrinas A, B ou C, muito embora possa confundir-se com estas últimas.

Claro que alguém pode questionar e entender que não existe essa história de sentimento religioso individual. Isso é balela - costuma se dizer. É freqüente encontrarmos afirmações do tipo - “O indivíduo ou é Católico, ou é Budista ou é Evangélico ou qualquer outra coisa, ou então não é nada disso” - Onde este nada disso, provavelmente, queira significar ser Ateu ou ser Agnóstico ou então não ser nada disso também. Isso mostra bem a grande confusão de idéias preconcebidas.

Bem, de certo modo, isto também representa uma posição religiosa individual. Entretanto, gostaríamos de tratar todo o leque de possíveis convicções religiosas individuais com isenção de ânimos, sem pretender eleger um determinado perfil como sendo melhor ou pior que os demais. E, sendo assim, estaremos sempre a favor da aceitação respeitosa das diferenças e sempre contra qualquer manifestação tendenciosa e discriminatória. É preciso entendermos - e acho que Sócrates também pensava assim – que a busca pelo sentido da vida só tem sentido sob o princípio da tolerância e respeito fraterno. E para quem creia que não há sentido a ser buscado, tudo bem, isto também é uma crença individual válida.

Não queremos confrontar crenças. As crenças, que também podem se apresentar como descrenças, não são racionalizáveis. Não precisam ser justificadas. São sentimentos a serem examinados segundo a consciência de cada um. O que nos interessa aqui é prospectar caminhos que conduzam à complementaridade em lugar do antagonismo.

A manifestação religiosa como instrumento de acesso ao poder, social ou político, ou ainda como instrumento de disputa ideológica, definitivamente, está fora de nossos propósitos. Mais que isto, este tipo de proposta, que pode se manifestar tanto ao nível do indivíduo como ao nível de um corpo doutrinário, deve ser repudiado com bastante vigor.

É neste imenso oceano de idéias, definições, conceitos e preconceitos que iremos navegar. Trata-se de uma formidável e inigualável aventura, repleta de surpresas e armadilhas. Um mergulho nos meandros desordenados do pensamento humano. Uma aventura limitada apenas pelos humildes recursos deste pretenso colecionador de sonhos e a imaginação de cada um.